Armadura lamelar na Escandinávia Viking

vikingerikrig

Reconstrução de um guerreiro de Birka. Hjardar -Vike 2011: pág. 347.

Traduzido por: Stephany Palos,
Hrafnar 
ReenactmentBR.

Essa é uma tradução autorizada de um artigo publicado por Tomáš Vlasatý, colega historiador e recriacionista histórico da República Tcheca do projeto Forlǫg, sobre o uso da armadura lamelar na Escandinávia durante a Era Viking, especialmente durante os séculos X e XI d.C. Se você gostou deste artigo, você pode apoiar o autor no site Patreon.

A questão da armadura lamelar é popular entre os especialistas e entre os reencenadores, tanto os veteranos quanto para os mais leigos. Eu mesmo lidei com essa questão várias vezes o que me levou a muitas descobertas, praticamente desconhecidas, desde o Snäckgärde de Visby à Gotland, que não sobreviveram, mas são descritas pelo padre Nils Johan Ekdahl (1799-1870), que pode ser chamado de “O primeiro arqueólogo cientifico de Gotland”.

As conclusões do Snäckgärde, em particular, são desconhecidas, e foram encontrados a menos de 200 anos atrás e assim como também foram perdidas. A literatura que escreve sobre este tema é pouco acessível, e os estudiosos sobre o assunto que não são suecos, dificilmente o conhecem ou tem acesso a ele. Tudo o que eu consegui descobrir é que no ano de 1826, foram examinadas 4 sepulturas com esqueletos na localidade de Snäckgärde (Visby, Land Nord, SHM 484), e o mais interessante dessas 4 sepulturas, estão nas sepulturas 2 e 4 (Carlson 1988: 245; Thunmark-Nylén 2006: 318)

Sepultura nº 2: sepultura com esqueleto voltado para a direção Sul-Norte, acompanhado por algumas pedras esféricas. O equipamento funerário consistia de um machado de ferro, um anel localizado na cintura, dois grânulos opacos na área do pescoço e “algumas peças de armadura sobre o peito” (något fanns kvar and pansaret på bröstet).

Sepultura nº 4: sepultura com esqueleto orientado na direção Oeste-Leste, túmulo esférico com altura de 0,9m e afundado ao topo. Dentro encontra-se um caixão de pedra calcaria, medindo 3m×3m. Foi encontrado uma fivela no ombro direito do corpo. No nível da cintura, foi encontrado um anel do seu cinto. Outra parte do equipamento consistia em um machado e “várias escamas de armadura” (några pansarfjäll), encontrada em seu peito.

A julgar pelos restos funerários, pode-se supor que as sepulturas correspondem a dois homens que foram enterrados com armadura. Claro, não podemos dizer com certeza que tipo de armadura era, mas parece ser uma armadura lamelar, sobretudo pelas analogias que apresentam com outros achados (Thunmark-Nylén 2006: 318). Data-los é algo problemático. Lena Thunmark-Nylén tentou fazer em suas publicações sobre a Gotland viking. Nelas, datam as sepulturas como pertencentes a Era Viking, devido as características das fivelas e dos cintos. No entanto, os resultados que parecem ser mais importantes para esta questão, são os machados. Principalmente o que foi encontrado na sepultura número 2 (jugando pelos desenhos de Ekdahl, que parece ser um machado de duas mãos danes), foi datado a partir do final do século X d.C. ou início do século XI d.C. (ver http://sagy.vikingove.cz/nekolik-poznamek-k-pouzivani-sirokych-seker/).

O que era pertencente a sepultura número 4, estava recoberta de bronze. Ambos os recursos dos machados são similares a outros exemplares do século XI d.C., por isso, podemos supor que as sepulturas pertencem a este mesmo período, apesar de que há algumas variações na estrutura e orientação das tumbas (ver  http://sagy.vikingove.cz/hrob-langeid-8/).

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Salão com os achados de anéis e outras peças das armaduras lamelares. Retirado de Ehlton 2003:16, Fig. 18, Criado por Kjell Persson.

As lamelas estavam espalhadas em volta do chamado Garrison (Garrison/Garnison) e eles numeraram 720 peças (a maior parte continha a partir de 12 peças). 267 lamelas poderiam ser analisadas e classificadas em 12 tipos, o que provavelmente serviu para proteger partes diferentes do corpo. Estima-se que a armadura de Birka protegia o peito, costas, ombros, barriga e pernas até os joelhos (Stjerna 2004: 31). A armadura foi datada da primeira metade do século X (Stjerna 2004: 31). Os estudiosos concordam que a lamelar é nômade, com origem no Oriente Médio, próximo a Balyk-Sook (exemplo retirado de Dawson 2002; Gorelik 2002: 145; Stjerna 2004: 31). Stjerna (2007: 247) pensa que a armadura e outros excelentes objetos não foram designados para a guerra, e eram muito simbólicos (“A razão para se ter tais armaduras, foi certamente outra que não militar ou prática“). Dawson (2013) está parcialmente em oposição e afirma que a armadura foi erroneamente interpretada, pois apenas três tipos de oito poderiam ser lamelares, e o número de lamelas reais não é o suficiente para meio peitoral da armadura. A conclusão dele é que as lamelas de Birka são somente pedaços de sucata reciclada. Na luz das armaduras de Snäckgärde, que não estão incluídos no livro de Dawson, eu particularmente, considero esta afirmação muito precipitada.

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Reconstituição da armadura de Birka, baseada na armadura de Balyk-Sook. Retirado de Hjardar –Vike 2011: 195.

As pessoas muitas vezes pensam que há muitos achados na área da antiga Rússia. Na verdade, existem apenas alguns achados do período que consiste entre o século IX ao XI, que pode ser interpretado como importações do Leste, assim como o exemplo de Birka (conversa pessoal com Sergei Kainov; ver Kirpicnikov 1971: 14-20). A partir deste período inicial, os achados vêm do exemplo de Gnezdovo e Novgorod. O material russo deste tipo, datado entre os séculos XI e XIII d.C., é muito mais abundante, incluindo aproximadamente 270 achados (ver Medvedev 1959; Kirpicnikov 1971: 14-20) sendo importante notar que desde a segunda metade do século XIII d.C., os números de fragmentos de argolas de cota de malha são quatro vezes maior que lamelas de armaduras lamelares, apontando que a malha era o tipo predominante de armadura no antigo território russo (Kirpicnikov 1971: 15). Com grande probabilidade, a armadura lamelar da antiga Rússia da Era Viking, vem do Bizâncio, onde era muito dominante, graças ao seu design simples e ao baixo custo de produção, já no século X (Bugarski 2005: 171).

Nota para os reencenadores

A armadura lamelar tornou-se muito popular entre os reencenadores históricos. Tanto que em alguns festivais e eventos com batalhas, as armaduras lamelares constituem de 50% (ou mais) do que outros tipos de armadura. Os principais argumentos para o uso são:

  • Baixo custo de produção
  • Mais resistente
  • Produção rápida
  • Parece ser mais legal

Embora estes argumentos sejam compreensíveis, eles permanecem totalmente inadequados. Para contrariar tais argumentos não é correta na reencenação histórica dos nórdicos da Era Viking. O argumento de que este tipo de armadura foi utilizado pelos Rus, pode ser contrariada, mesmo em tempos de maior expansão das lamelares na Rússia, o número de armaduras de malha de metal (cotas de malha), quadriplicou, além de que a primeira citada (armadura lamelar), eram importadas do Oriente. Se mantivermos a ideia básica que a recriação histórica deve-se basear-se na reconstrução de objetos típicos, então nos deve ficar claro que a armadura lamelar é adequada apenas para recriação de guerreiros nômades e bizantinos. Obviamente, o mesmo se aplica a armadura lamelar de couro.

Um bom exemplo de armadura lamelar, Viktor Kralin.

Por outro lado, os achados de Birka e Snäckgärde sugerem que na região oriental da Escandinávia poderia haver uma recepção deste tipo de armadura. Mas antes de qualquer conclusão, temos que levar em consideração que Birka e Gotland tinham um fluxo grande, frequentemente visitadas por comerciantes de uma longa distância e outras grandes massas de pessoas, provenientes em particular da Europa Oriental e Bizâncio, assim como tinha uma grande influência nestes locais. Esta, também é a razão, para a acumulação de artefatos de proveniência oriental, que não eram encontrados na Escandinávia. De certo modo, é estranho que não foram realizados mais achados similares nestas áreas, especialmente correspondentes ao período do domínio bizantino. Mas isto não quer dizer que as armaduras lamelares foram frequentes nesta área, pelo contrário, este tipo de armadura se encontra quase isolado de qualquer tradição guerreira nórdica. Por outro lado, a armadura de malha, como na antiga Rússia, pode ser identificada como a forma de armadura predominante na Escandinávia durante a Era Viking. Isso pode ser verificado pelo fato de que os anéis de cota de malha, em si, foram encontrados em Birka (Ehlton 2003). Com respeito a produção da armadura lamelar no território escandinavo e russo, não existe nenhuma evidencia que demonstre que isso acontecia.

Para incluir a armadura lamelar no recriacionismo histórico, deve-se cumprir:

  • Unicamente fazer reconstrução das regiões do Báltico e Rússia.
  • Permitir um uso limitado (por exemplo, uma armadura por grupo ou um por cada quatro pessoas com cota de malha).
  • Somente utilizar as lamelas de metal. Nada de couro.
  • As formas das peças utilizadas devem corresponder com os achados de Birka (em alguns casos são vistos alguns modelos de Visby, sendo isto um grande erro).
  • Não combinar com elementos escandinavos (fivelas, cintos, roupas, etc.)
  • A armadura deve ser semelhante a original e deve estar acompanhada das demais partes do traje.

Se estamos agora em um debate entre as duas posições: “SIM, usar a armadura lamelar” ou “NÃO, não se deve usar a armadura lamelar”, ignorando a possibilidade de “ sim ao uso da armadura lamelar (mas com os argumentos mencionados) ”, eu escolheria a opção “sem armadura lamelar”. E o que você acha?

Bibliografia

Bugarski, Ivan (2005). A contribution to the study of lamellar armors. In: Starinar 55, 161-179. Online: http://www.doiserbia.nb.rs/img/doi/0350-0241/2005/0350-02410555161B.pdf.

Carlsson, Anders (1988). Penannular brooches from Viking Period Gotland, Stockholm.

Ehlton, Fredrik (2003). Ringväv från Birkas garnison , Stockholm. Online: http://www.erikds.com/pdf/tmrs_pdf_19.pdf.

Dawson, Timothy (2002). Suntagma Hoplôn: The Equipment of Regular Byzantine Troops, c. 950 to c. 1204. In: D. Nicolle (ed.). Companion to Medieval Arms and Armour , Woodbridge, 81-90.

Dawson, Timothy (2013). Armour Never Wearies : Scale and Lamellar Armour in the West, from the Bronze Age to the 19th Century, Stroud.

Gorelik, Michael (2002). Arms and armour in south-eastern Europe in the second half of the first millennium AD. In: D. Nicolle (ed.). Companion to Medieval Arms and Armour, Woodbridge, 127-147.

Hedenstierna-Jonson, Charlotte (2006). The Birka Warrior – the material culture of a martial society, Stockholm. Online: http://su.diva-portal.org/smash/get/diva2:189759/FULLTEXT01.pdf.

Kirpicnikov, Anatolij N. (1971). Древнерусское оружие. Вып. 3. Доспех, комплекс боевых средств IX—XIII вв, Moskva.

Medvedev, Аlexandr F. (1959) К истории пластинчатого доспеха на Руси //Советская археология, № 2, 119-134. Online:http://swordmaster.org/2010/05/10/af-medvedev-k-istorii-plastinchatogo-dospexa-na.html.

Stjerna, Niklas (2001). Birkas krigare och deras utrustning. In: Michael Olausson (ed.). Birkas krigare, Stockholm, 39–45.

Stjerna, Niklas (2004). En stäppnomadisk rustning från Birka. In: Fornvännen 99:1, 28-32. Online:http://samla.raa.se/xmlui/bitstream/handle/raa/3065/2004_027.pdf?sequence=1.

Stjerna, Niklas. (2007). Viking-age seaxes in Uppland and Västmanland : craft production and eastern connections. In: U. Fransson (ed). Cultural interaction between east and west, Stockholm, 243-249.

Thunmark-Nylén, Lena (2006). Die Wikingerzeit Gotlands III: 1–2 : Text, Stockholm.

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