The helmet from Tjele

The fragment of the helmet from Tjele. Author: Arnold Mikkelsen, Nationalmuseet. Taken from the catalogue of National Museum of Denmark.

In 1850, an extraordinary find was discovered by a young farmer in the forest called Lindum Storskov, near Tjele, Denmark. The find consisted of a set of blacksmith equipment – two anvils, five hammers, three tongs, sheet metal shears, two files, a wedge, two nail headers, casting bowls (with traces of tin and lead), a small touchstone, a set of scales, nine weights, five sickles, a key, three iron nails, an axe, two jingles, a spearhead/arrowhead, bronze wires, a lid of a box for scales, bone and bronze fragments of a casket, a mount of a drinking horn, iron fragments and pieces of a helmet (Leth-Larsen 1984; Lund 2006: 325). Thanks to local authorities, the set was sent to Copenhagen, where it was analyzed. The find was published three times – in 1858 (Boye 1858), then in 1939 (Ohlhaver 1939) and finally in 1984 (Munksgaard 1984; Leth-Larsen 1984).

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Some other objects from the find from Tjele. Taken from Boye 1858: Pl. II–IV.

The helmet fragment is a very interesting object, that was originally interpreted as a saddle mount. It was Elisabeth Munksgaard, who expressed the theory about the helmet. Still, it is rather an overlooked artefact that was never studied in detail nor scientifically reconstructed. That’s the reason why this article was written.

Munksgaard sums up several important details:

This winged-shaped object is not a saddle mounting, but the eyebrows and nose-gueard of a helmet, made of iron and bronze. […] We are, unfortunately, not able to judge what the Tjele helmet looked like. There is not a trace of chain mail rest of the helmet, nor any iron plates fit for making up the rest of the helmet. But there are eight fragments of thin iron strips, about 1 cm broad and of varying length which might have been used for joining the plates together.” (Munksgaard 1984: 87)

More than detailed description, her article includes the comparison with the helmet from Gjermundbu. Since she considers the helmet from Gjermundbu to be the closest analogy, it is obvious she interprets the fragment as a part of a spectacle low-domed helmet. This type of helmets was used until 1000 AD (Munksgaard 1984: 88). The dating of the find from Tjele was corrected by Lund (2006: 325, 339), who claims the set belongs to the period between 950–970 AD. Tweedle (1992: 1126) assumed that the mask was multi-pieced; two ocular pieces were riveted to the nasal. The hole in the broader piece of the nasal could support this theory. Moreover, the mask from Kyiv shows the same feature.

The size of the mask is not convincingly given, but both Munksgaard and Tweedle suggest it is 12 × 7 cm (Munksgaard 1984: 87, fig. 4; Tweedle 1992: 1128, fig. 561). Just in the middle of eyebrows, at the base of the nasal, a hole for a rivet is placed. At least one decorated bronze strip was mounted on the eyebrows. It seems that entire eyebrows were symmetrically covered by bronze strips like this one. As a result, the mask was a distictive feature of the helmet, as can be observed in cases of other helmets too (Gjermundbu, Lokrume, Kyiv or St. Wenceslas helmet).

Regarding the construction, we can not say much. Munksgaard gives the information about eight fragments of narrow bands, which makes it possible to imagine that the helmet could have the similar construction as the helmet from Gjermundbu. The dome of the helmet of Gjermundbu is formed by four triangular-shaped plates. Under the gap between each two plates, there is a narrow flat band, which is riveted to a somewhat curved band located above the gap between each two plates. In the nape-forehead direction, the flat band is formed by a single piece, that is extended in the middle (on the top of the helmet) and forms the base for the spike. There are two flat bands in the lateral direction. Triangular-shaped plates are riveted to each corner of the extended part of the nape-forehead band. A broad band, with visible profiled line, is riveted to the rim of the dome. Two rings were connected to the very rim of the broad band, probably remnants of the aventail. In the front, the decorated mask is riveted onto the broad band.

The scheme of the helmet. Made by Tomáš Vlasatý and Tomáš Cajthaml.

The scheme of the helmet of Gjermundbu. Made by Tomáš Vlasatý and Tomáš Cajthaml.

Even though the mask from Tjele is just a fragment, we can not underestimate the meaning of this find. It broadens our vision about Viking Age protective gear, its decoration and the makers. Recently, two of my friends have tried to replicate the helmet fragment from Tjele. The reconstruction of the complete helmet is impossible, but I personally think that these both versions are decent and plausible tries that should be accepted by reenactment community.

First, let’s have a look on the work of Dmitry Hramtsov. The dome of this version is based on Vendel Period helmets. Since multi-pieced masks are typical for pre-Viking helmets, such a dome seems to be understandable. Metal bands are, however, much wider than those found in Tjele. The eyebrows are decorated with 14 bronze strips.

 

The second try is the helmet made by Konstantin Shiryaev and Maxim Teryoshin. In this case, the dome is based on the helmet from Gjermundbu. Konstantin used 16 bronze strips.


Bibliography:

Boye, V. (1858). To fund af smedeværktøi fra den sidste hedenske tid i Danmark (Thiele-Fundet og Snoldelev-Fundet). In: Annaler for Nordisk Oldkyndighed og Historie, København: 191–200.

Leth-Larsen, B. (1984). Selected objects from the stock of the Tjele smith. In: Offa 41, Neumünster: 91–96.

Lund, J. (2006). Vikingetidens værktøjskister i landskab og mytologi (Viking Period tool chests in the landscape and in mythology). In: Fornvännen 101, Stockholm: 323–341.

Munksgaard, E. (1984). A Viking Age smith, his tools and his stock-in-trade. In: Offa 41, Neumünster: 85–89.

Ohlhaver, H. (1939). Der germanische Schmied und sein Werkzeug. Hamburger Schriften zur Vorgeschichte und Germanischen Frühgeschichte, Band 2, Leipzig.

Tweddle, D. (1992). The Anglian Helmet from 16-22 Coppergate, The Archaeology of York. The Small Finds AY 17/8, York.

O Elmo de Gjermundbu

Esta é uma tradução autorizada de um artigo publicado por Tomáš Vlasatý, colega historiador e recriacionista histórico da República Tcheca, mentor do projeto Forlǫg e membro do grupo Marobud. Você pode apoiar o autor através de seu perfil no site Patreon.

Em 30 de março de 1943, a Universidade de Oldsaksamling, em Oslo, obteve informações de que um fazendeiro chamado Lars Gjermundbu havia encontrado e escavado um grande monte de terra perto de sua fazenda Gjermundbu na comuna de Ringerike, no condado de Buskerud, sul da Noruega. No mês seguinte o lugar foi examinado por arqueólogos (Sverre Marstrander e Charlotte Blindheim) e o resultado foi realmente fascinante.
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Planta do monte. Retirada de Grieg 1947: Pl. I.

O monte tinha 25 metros de comprimento, 8 metros de largura no ponto mais largo, 1,8 metros de altura na parte central e era predominantemente formado por solo pedregoso; no entanto, o interior da parte central era pavimentado com pedras grandes. Na parte central, cerca de um metro abaixo da superfície e sob a camada de pedra, foi descoberta a primeira sepultura, denominada “Grav I”. A 8 metros de Grav I, na parte ocidental do monte, foi encontrada a segunda sepultura, denominada “Grav II”. Ambas as sepulturas representam enterros de cremações da segunda metade do século X e são catalogadas sob a marca C27317. Ambas as sepulturas foram documentadas por Sigurd Grieg em Gjermundbufunnet : en høvdingegrav fra 900-årene fra Ringerike em 1947.

Grav I consistia em dezenas de objetos ligados à propriedade pessoal e várias atividades, incluindo lutas, arquearia, equitação, jogos de lazer e culinária. Entre outros, os mais interessantes são os objetos únicos como a cota de malha e o elmo, que se tornaram muito famosos e são mencionados ou retratados em quaisquer publicações relevantes.
Předpokládaná rekonstrukce bojovníka uloženého v Gjermundbu, 10. století. Podle

Possível reconstrução do equipamento que foi encontrado em Grav I, Gjermundbu. Tirado de Hjardar – Vike 2011: 155. O formato da coifa é o ponto fraco da reconstrução.

© 2016 Kulturhistorisk Museum, UiO.

O elmo é frequentemente descrito como “o único elmo completo da Era Viking que se tem conhecimento”. Infelizmente isso não é verdade por pelo menos duas razões. Em primeiro lugar, o elmo não é de modo algum completo – ele demonstra danos pesados e consiste em cerca de 10 fragmentos no estado em que se encontra atualmente, o que representa um quarto ou pouco mais de um terço do elmo. Para ser honesto, esses fragmentos do elmo são fixados sobre uma matriz de gesso que tem a forma aproximada do elmo original; alguns deles de maneira especulativa, podem até estar na posição errada. Membros negligentes da academia apresentam essa versão como uma reconstrução nos museus e nos livros, então essa tendência é copiada e reproduzida por recriacionistas e pelo público geral. Tenho de concordar com Elisabeth Munksgaard (Munksgaard 1984: 87), que escreveu: “O elmo de Gjermundbu não está bem preservado nem bem restaurado“.

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Uma antiga reconstrução do elmo, feita por Erling Færgestad. Retirada de Grieg 1947: Pl. VI.

Em segundo lugar, há publicações sobre fragmentos de pelo menos 5 outros elmos espalhados pela Escandinávia e também em áreas com forte influência escandinava (veja o artigo Elmos Escandinavos do Século X [em inglês]). Estou ciente de vários achados e interpretações não publicadas cujas autenticidades não podem ser comprovadas, especialmente os fragmentos de elmos encontrados em Tjele, na Dinamarca, que são muito próximos ao elmo de Gjermundbu, uma vez que consistem em uma máscara e oito faixas estreitas de metal de 1 cm de largura (veja o artigo O Elmo de Tjele [em tcheco]). Baseado nos fragmentos do elmo de Gjermundbu, nos fragmentos do elmo de Tjele e na máscara de Kyiv (o formato original do fragmento de Lokrume é desconhecido), podemos dizer que o tipo de elmo “spectacle helmet” (algo como elmo com máscara ocular em português) claramente evoluiu dos elmos da Era Vendel e foi o tipo predominante de elmo escandinavo até próximo de 1000 A.D., quando os elmos cônicos com nasais tornaram-se populares.

Para ser justo, o elmo de Gjermundbu é o único elmo do tipo “spectacle helmet” da Era Viking cuja construção é completamente conhecida. Vamos dar uma olhada nisso!

O esquema do elmo. Feito por Tomáš Vlasatý e Tomáš Cajthaml.

Meu colega Tomáš Cajthaml fez um esquema muito legal do elmo, de acordo com minhas instruções. O esquema é baseado na ilustração de Grieg, em fotos salvas no catálogo Unimus e em observações feitas pelo pesquisador Vegard Vike.

A cúpula do elmo é formada por quatro placas triangulares (azul escuro). Sob a abertura entre cada duas placas, há uma tira estreita que é rebitada à outra tira ligeiramente curvada situada acima dessa abertura entre cada duas placas (amarelo). Na direção nuca-testa, a tira é formada por uma única peça, que é estendida no meio (no topo do elmo) e forma a base para o espeto (azul claro). Existem duas tiras planas na direção lateral (verde). As placas triangulares são rebitadas em cada canto da tira nuca-testa. Uma tira larga, com a linha perfilada visível, é rebitada à borda da cúpula (vermelho; não se sabe como as extremidades desta parte de metal conectavam-se). Dois anéis estavam conectados na borda dessa tira larga, prováveis restos de uma coifa em malha de aço. Na parte dianteira, a máscara ocular é rebitada na tira larga.

© 2016 Kulturhistorisk museum, UiO.

Uma vez que todas as dimensões conhecidas foram exibidas no esquema, deixe-me acrescentar alguns fatos suplementares. Em primeiro lugar, as quatro tiras ligeiramente curvas são demonstradas de maneira um pouco diferente no esquema – as originais são mais curvas na parte central e se afilam perto das extremidades. Em segundo lugar, embora o espeto seja uma característica importante, estudos nos mostram que sua presença é mais uma questão de uso estético do que de uso prático. Sobre os anéis da possível coifa de malha, o espaçamento entre eles é de aproximadamente 2 cm. Também são muito grossos, ao contrário dos anéis da cota de malha. Provavelmente foram fechados apenas encostando as pontas (butted mail), uma vez que nenhum vestígio de rebite foi encontrado. Não se pode afirmar se eles de fato representam uma coifa, porém, caso tal afirmação seja positiva, o que parece é que a coifa estava pendurada em anéis ou em um fio que atravessava estes anéis (ver meu artigo sobre Dispositivos de Suspensão de Coifas Medievais [em tcheco]).

Falando sobre a máscara, os raios-x revelaram pelo menos 40 linhas que formam cílios, da mesma forma que a máscara do elmo de Lokrume (veja o artigo O Elmo de Lokrume [em inglês]). Apesar das tendências modernas, não foram encontrados vestígios de incrustações metálicas nem gotículas de metal derretido. Existe uma diferença significativa entre a espessura das placas e tiras e a espessura da máscara, mesmo esta demonstrando uma espessura irregular. Inicialmente, a superfície do elmo poderia ser polida, de acordo com Vegard Vike.

Eu acredito que estas notas podem ajudar as novas gerações mais acuradas de recriacionistas. Sem contar anéis, o elmo pode ser formado a partir de 14 peças e pelo menos 33 rebites. Tal construção é um pouco surpreendente e não tão sólida. Em minha opinião, este fato pode levantar a discussão entre recriacionistas sobre o elmo de Gjermundbu representar um elmo de guerra ou um elmo cerimonial/simbólico. Eu, particularmente, penso que não há necessidade de ver essas duas funções como funções separadas. Sou muito grato aos meus amigos Vegard Vike, ao jovem artista e recriacionista Tomáš Cajthaml e ao Samuel Collin-Latour. Espero que vocês gostem deste artigo. Em caso de qualquer pergunta ou observação, por favor contacte-me ou deixe um comentário. Se vocês quiserem saber mais e apoiar meu trabalho, por favor, financie meu projeto no Patreon.


Vestanspjǫr agradece ao amigo Tomáš Vlasatý pela oportunidade de trazermos este trabalho à língua portuguesa. A bibliografia utilizada pelo autor pode ser consultada no artigo original, no link abaixo.